O vendedor ambulante rompe o silêncio da Cinelândia. Vestido em tons de cinza, camisa desabotoada, com cheiro de guardado. Ali, sozinho, defronte o Cine Odeon, o rapaz, inquieto, bate a madeira em seu armário de big bigs, batons garoto, malboros e mentex. Tantos bares, tantas bancos para dar alma à praça. Mas não há ninguém. E nem um outrem para tomar um chope ou comprar balas do camelô solitário. Apenas o barulho, o homem, as luzes da Cinelândia...e eu sentada num tamborete sujo.
A cidade pára em meus olhos. O que fazer com aquele vazio todo? Preencher com o que, se a única coisa que consigo desenhar no tempo são as saudades do nordeste que morei por 12 anos. Olho o Amarelinho. Quem me dera poder viver a época em que esse bar não dormia. Em que Vinicius, Cacasos, Carlinhos Oliveiras e Tom Jobins tomavam quantidade industriais de chopes e costuravam a noite com conversas fiadas e cantorias.
Olho o banco, o garçom taciturno, o pedaço de papel jogado no tabuleiro da mesa. Não vejo nem uma marca d’agua de tulipas para moldar um historia, uma alma e um trocado para o bar. Volto ao tamborete. Sinto saudades do vendedor ambulante. Mesmo ali, sozinho, absorto, a procura de alguém para comprar uma guloseima, eu o tinha como companhia. Um mendigo, com a barriga proeminente, pousa a cabeça na borda do Obelisco da praça, e respira, ofegante. Na solidão, qualquer ruído é companhia.
Não consigo criar minha cidade naquela Cinelândia. Também, pudera! Um lugar que já foi alvo de multidões, de moçoilas, poetas e seresteiros, hoje fica a espera de alguém para dar nova vida a ela. Serei eu a sua nova desenhista? Eu bem que tento, mas ainda tenho os olhos guardados nas saudades das ruas estreitas e calçadas mal feitas do Ceará.
As águas tomam meus olhos, um gelo nas mãos e um punhal no miocárdio naquela praça empoeirada. Já sem esperanças de um convite para sair do tamborete, me mudo para o banco do ponto de ônibus. Um senhor, alto, esguio, de chapéu panamá, com unhas alongadas, se aproxima e apóia o corpo na sua bengala de madeira escura. Típico personagem carioca. Talvez esteja à espera de condução. Talvez também à espera de um afeto. Encravo o olhar nas pedras portuguesas da calçada. De sopetão, no meio daquele vazio, ele pergunta: - Qual a sua canção favorita?
Surpreendida por sua simplicidade, quase fico sem melodias para respondê-lo. Mas devolvo o seu pedido de companhia. E digo: - Não sei o nome dela, mas há dias que eu a cantarolo...é mais ou menos assim...
“A tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim...”
Ele aumenta o sorriso, encosta a bengala num canto do ponto e diz: - Minha jovem, eu gosto mesmo é de samba de raiz, mas vou cantar essa com você. E o senhor foi esboçando a musica comigo, sem se preocupar com o vazio que lutava por um maior espaço naquele ponto da condução. As águas de meus olhos, de repente secam, e um calor toma minha face.
“Cantando eu mando a tristeza embora”, em dueto falamos.
Meu ônibus chega. E aquela Cinelândia já não estava tão solitária assim. O vendedor ambulante acena de longe antes eu subir o ônibus. O mendigo bate palmas em minha despedida. O garçom do Amarelinho ergue um chope para brindar a minha passagem. E o senhor, apenas continuou a cantar aquele Caetano que sugeri. Qualquer silêncio é criatividade. Qualquer canto é companhia.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
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